catálogo da Exposição "Almofadinhas" | Sesc Palladium - BH/MG

catálogo da Exposição "Almofadinhas" | Sesc Palladium - BH/MG

Catálogo (ampliado) da exposição Almofadinhas, dos artistas Fábio Carvalho, Rick Rodrigues e Rodrigo Mogiz, realizada no SESC Palladium - BH | MG, de 16/02 a 26/03 de 2017.




Biografias

Fábio Carvalho


O trabalho atual de Fábio Carvalho surgiu como uma reflexão sobre os elementos que compõem os estereótipos de identidade de gênero na infância, particularmente em culturas ocidentais sexistas, como os brinquedos que são dados para as crianças, e que estas são incentivadas e autorizadas a brincar: bolas, armas, soldados e atividades mais ativas e de força para os meninos; bonecas, princesas, jogos de panelinhas/casinha, e outras atividades delicadas e sensíveis para meninas, particularmente aquelas que imitam as tarefas domésticas culturalmente aceitas como femininas. Esta divisão em dois mundos distintos, mesmo quando não intencionalmente, pode ser utilizada para direcionar e determinar a futura personalidade de cada criança. A experiência da infância, através da socialização conduzida pelas brincadeiras, permite que as crianças construam-se como "pequenos homens" e “pequenas mulheres”.

O artista procura com seu trabalho levantar uma discussão sobre os estereótipos e as expectativas de gênero, através da sobreposição e conflito entre os clichés de masculinidade ideal, como o militar, o atleta musculoso, o cowboy, o trabalhador braçal, com elementos e labores tradicionalmente atribuídos ao território do feminino, como padrões decorativos florais, a louça de porcelana, flores e borboletas, bordados e rendas. Com sua produção, o artista busca questionar o senso comum de que força e fragilidade, virilidade e poesia, masculinidade e vulnerabilidade não podem coexistir, e nos lembrar que tudo aquilo que nos parece eterno e definitivo, como tudo na cultura humana, são na verdade resultado de acordos no tempo e espaço.

Rick Rodrigues


O desenho é o ponto de partida na pesquisa plástica do artista.  Rick Rodrigues hibridiza diferentes meios, processos e materiais. São recorrentes nas séries do autor, desenhos inseridos sobre relevos, resultantes da fricção paciente sobre o verso do papel recorrendo simplesmente a uma caneta esferográfica que quebra as fibras do papel. Resultam dessa ação, elementos abstratos, de aparência rugosa, que ativam a imaginação remetendo a nuvens, formações rochosas, ao movimento das marés, ao rodopio de um furacão, entre outras imagens. É sobre os relevos do anverso do papel, que ocupam apenas uma parcela desse campo branco, que o autor insere os desenhos de pequenos objetos, cujos motivos parecem familiares à primeira vista: camas, cadeiras, mesas, armários, baús, gramofones, sofás, escadas, barcos, casas, caixas... Para elaborar tais desenhos recorre apenas ao uso de uma lapiseira e grafites coloridos 0.5mm, com os quais obtém sutis gradações de azul ou vermelho.

Rick dispõe de uma espécie de enciclopédia de fábulas e uma coleção de signos capazes de evidenciar sua infância, memórias afetivas, sonhos, desejos, perturbações, fragilidades e laços familiares, construções poéticas de referências surrealistas. Ora esses signos saltam do suporte e ganham terceira dimensão; a partir daí, o artista se compromete em criar delicadas instalações – universos particulares harmônicos, como o mesmo define. Um processo de hibridização que perpassam o desenho, escultura, apropriação e/ou ressignificação e criação de objetos. Obras que desvelam pequenos mundos dentro de outros mundo se criam narrativas enviesadas.

O artista elabora já há algum tempo, delicados bordados sobre lenços de algodão, morim, sacolas plásticas, papéis e fitas acetinadas. Tal missiva foi passada do irmão mais velho, ainda na infância, quando Rick observava-o costurar couro no sítio de seus avós maternos. Quando produz desenhos bordados, Rick dá vida a pássaros, meninos com cabeças de ramos de flores multicoloridas e a seus escritos que insistem em cruzar as tramas dos tecidos; linguagem poética na qual sobressai o gesto e a memória individual.

Rodrigo Mogiz


Rodrigo Mogiz trabalha no limiar entre a pintura e o desenho. O bordado, que é seu trabalho mais bem estruturado, entra nessa intercessão. Rodrigo Mogiz começou a bordar porque queria partir de algo pessoal e afetivo. Havia ainda o interesse por figuras de modelos de páginas de revista de moda e anúncios publicitários. Fazer desenhos destes modelos através de agulha e linha provoca um belo estranhamento, pois percebemos que esse ideal de beleza vendido como perfeito foi reconstruído através de um bordado sem técnica, considerado pela tradição como imperfeito, “mal feito”.

A partir daí o artista se apropria dessas imagens de moda que mostram alguma beleza ou que passam algum significado, explorando questões afetivas e sexuais das formas mais diversas. Através de conexões e sobreposições, Rodrigo Mogiz procura estabelecer narrativas entre as figuras bordadas em várias camadas de tecido.

O artista usa essencialmente a entretela como suporte, mas vem buscando outros materiais translúcios para criar as velaturas. Sua estratégia é primeiro atrair o olhar, e para isso abusa do uso de materiais que "enfeitem" seus bordados: miçangas, pedrarias, rendas, alfinetes, dentre outros materiais de costura.

Porém, após esse primeiro contato, se percebe o que de inquietante o artista quer mostrar sobre as relações humanas. Rodrigo Mogiz tem como referência em seu trabalho o literário. Com as narrativas que explora é como se quisesse contar histórias, mas acaba por deixar para que as pessoas criem essas histórias, e façam suas próprias conexões pessoais.